18/10/2018

Ushuaia: uma cidade cosmopolita na mítica borda da terra

Os faróis fascinam aventureiros por estarem em contato com a incerteza e o mistério do mar. Confortam os marinheiros por guiá-los na escuridão. Encantam a todos por sua imagem poética e solitária e tornam-se símbolos dos lugares onde estão localizados.

Na pequena Ushuaia, erguida onde a terra acaba, no extremo Sul da Argentina, dois faróis disputam essa condição. O primeiro foi construído em 1884 e poucos sabem da sua existência, mas teve o mérito de conquistar o imaginário de Júlio Verne a ponto de tornar-se cenário e título de um de um dos livros mais conhecidos do escritor:  O farol do fim do mundo. Seu nome verdadeiro é  Faro de San Juan de Salvamento. Está localizado na Ilha dos Estados, que é a parte mais austral da Terra e sua forma difere da que tem a maioria dos outros faróis. O segundo é o Faro Les Éclaireus. Bem mais recente, tem aparência convencional e encanta turistas do mundo inteiro com seu listrado vermelho e banco. Ambos sintetizam a história do lugar, marcada pela distância e pelo isolamento, impregnada pelos mistérios do fim do mundo.

Ponto de partida para a Antártida

Para se ter uma ideia da situação geográfica do Ushuaia, basta dizer que a cidade está localizada a 3 mil km de Buenos Aires, a capital do país ao qual pertence, e a apenas 1 mil km da Antártida.

De sua baía partem as embarcações que se dirigem ao continente gelado. Atualmente há inúmeros cruzeiros que fazem a rota completa ou passeios mais curtos ao longo do Canal de Beagle, onde já se podem observar tanto geleiras, como pinguins, leões marinhos e outros animais polares.

Além da proximidade geográfica, e de algumas coincidências de paisagens e fauna, Ushuaia guarda ainda uma semelhança com a Antártida: devido ao frio e à distância, demorou a ser explorada pelo chamado 'homem branco'.

Ironicamente, o arquipélogo em que a cidade de Ushuaia está situada, e da qual é a capital, tem o nome de Terra do Fogo, provavelmente por causa da visão que as fogueiras dos nativos, com suas colunas de fumaça, proporcionavam aos navegantes.


O povo da água



A região foi habitada inicialmente por pelo menos quatro povos pré-históricos, com culturas semelhantes. No local onde está hoje a cidade de Ushuaia predominavam os Yagans (ou Yaganes) - uma tribo nômade e canoeira, que tinha uma peculiar visão de mundo baseada na água e não na terra, como é comum na maioria dos povos. Eles caçavam guanacos, mas a base de sua alimentação eram os mariscos. Sabe-se que tinham uma língua e uma rica mitologia.

Pouco restou dessa tribo que habitou o local do século 9 antes de Cristo até meados do século 19 e desapareceu em consequência de epidemias trazidas pelos colonizadores e do processo de aculturação.

O povo da terra


O farol de San Juan de Salvamento, citado no início do tetxo, é o marco da ocupação do Ushuaia pelo chamado homem branco, no século 19. Junto com o farol, veio um presídio militar e uma estação de salvamento para socorrer inúmeros pesquisadores e aventureiros que naufragavam no local.

Durante muitos anos, os únicos habitantes, além dos índios, foram os presos e os funcionários das três instituições. Com o tempo, o presídio passou a abrigar também presos reincidentes. Na medida em que crescia, fazia a cidade crescer, e criava-se também uma imagem sombria do lugar. No mesmo período, chegaram ao local alguns missionários ingleses que acabaram impulsionando a economia com a criação de bois, ovelhas e cabras e com a exploração de madeira.

A virada histórica começou em 1947, com o fechamento do presídio. Nas décadas seguintes, houve pelo menos três fatos que impulsionaram o desenvolvimento local:  a criação de uma zona franca para impulsionar a economia e o turismo, a descoberta de petróleo e a aprovação da "Lei de Promoção Industrial". Juntos, contribuíram para aumentar enormemente a população local, hoje calculada em aproximadamente 60 mil habitantes originários, em sua grande parte, de outros estados ou países. No rastro do crescimento populacional vieram outras conquistas como a transformação do território em província e a participação nas eleições nacionais.

Do isolamento aos múltiplos apelos turísticos



Embora Ushuaia hoje tenha uma economia diversificada, o turismo está entre as atividades de maior impacto. Grande parte dos visitantes é atraída pela prática do esqui na
estação Cerro Castor ou pela observação da fauna, que é exótica e
abundante. Muitos aproveitam para fazer compras, beneficiando-se da isenção de impostos da zona franca. Há também os que buscam a exótica gastronomia, que tem como destaques o caranguejo gigante denominado Centolla, a merluza-negra e o cordeiro patagônicos.

Mas são outros programas que levam o visitante a conhecer a
história e a absorver o espirito do lugar, impregnado pelos mistérios do fim do mundo. Antes de tudo, é preciso fazer uma visita, de preferência guiada, aos museus localizados no prédio do antigo presídio, que por si só já emana história e impressiona.

São cinco pavilhões dispostos como raios, unidos por uma construção central. Ali está a memória da navegação, das aventuras, dos naufrágios e dos piratas. Estão também informações sobre os habitantes nativos e um amplo registro da realidade do presídio. Do lado de fora, há uma réplica do Farol do Fim do Mundo, cujo original foi reconstruído na própria Ilha dos Estados, depois de um século de abandono em estado de ruínas.

Uma rota ferroviária usada para transportar presidiários até a metade do século 20, batizad como trem do Fim do Mundo,  foi reativada e agora é usada pelos turistas que desejam conhecer o Parque Nacional da Terra do Fogo, a 12 km da cidade de Ushuaia, ou simplesmente experimentar o caminho percorrido pelos presos que eram levados para o trabalho na região hoje ocupada pelo parque.

Depois de tudo isso, resta perambular pela cidade colorida, e por sua baía, tentando imaginar como foi a vida dos Yaganes e dos primeiros colonizadores, buscando experimentar o fascínio que mobilizou tantos aventureiros, cientistas e escritores.

Ushuaia - Terra do Fogo - Patagônia - Argentina


Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos: Pixabay e divulgação (Museo Maritmo e del Presidio de Ushuaia)

Referência bibliográfica: Livro de Júlio Verne - O farol do fim do mundo ou O farol do cabo do mundo.

Museus: Museo Maritmo e del Presidio de Ushuaia (complexo que reúne quatro museus).

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Museu do Sertão

18 comentários:

  1. Respostas
    1. Obrigada pelo comentário, Denise. É fascinante mesmo.

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  2. Respostas
    1. Verdade, é lindo. Mas você esqueceu de se identificar. Da próxima vez coloque o seu nome no final da mensagem, ok? Obrigada pelo comentário.

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  3. Demais, Sylvinha! Lugar interessante e bonito! Beijão!

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  4. Exelente matéria! Mas, prefiro o sertão ! Isso aí deve ser morada somente para pinguim!❄😁❄

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    1. Valeu, Valtinho! O blog já tem várias matérias sobre temas do sertão Piranhas, Canudos, Arara-azul-de-lear, Museu do Sertão. E virão outras.Fique ligado!

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  5. Estive em Ushuaia 2 vezes. A primeira em 1993 em que tenho a feliz lembrança de ter acampado no Parque Nacional da Terra do Fogo e de a noite termos ido observar os castores em plena atividade. Na segunda vez Ushuaia foi o ponto de partida numa viagem em um veleiro frances para a Antarctica. Esta ocorreu em Fevereiro de 1996. Ushuaia é a meca de aventureiros navegadores. Gente interessantissima de varios paises com experiências incriveis que normalmente somente conhecemos pelos programas de televisao. Nos veleiros eles se confraternizam em animadas Festas antes de partirem para a solidao do mar. Fui a uma dessas Festas e fiquei muito impressionada com esse mundo de pessoas sem Fronteiras.
    Augusta Leite Campos

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    1. Que interessante a sua experiência, Gusta! Obrigada por compartilhar com todos os leitores.

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  6. A matéria de Ushuaia despertou minha curiosidade e interesse, parabéns. Mas gostaria de sugerir que as fotos, se possível, tivessem sempre uma legenda, identificando o local. Senão, a gente fica rolando o texto até descobrir qual foto é de onde. Alice Sampaio, jornalista.

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    1. Obrigada pelo comentário e pela sugestão, Alice. Volte sempre. Abraço!

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  7. Fiquei alguns dias no " fim do mundo " foi uma fantástica viagem com uma paisagem inusitada é uma excelente gastronomia.
    Para quem já esta ali
    Vale conhecer o EL Calafat
    PERITO MORENO
    Uma geleira do tamanho da cidade de Buenos Aires.

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    1. Obrigada por compartilhar sua experiência com os leitores de "lugares de memória". Pena que você não assinou a postagem. Da próxima vez escreva o seu nome ao final do texto. Abraço!

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