11/10/2018

Oráculo de Delfos: lugar de profecias no centro do mundo

Foi em Delfos que Édipo ouviu a profecia: mataria seu pai e se casaria com a própria mãe. Segundo algumas versões, foi lá também que o herói Herácles (Hércules para os  romanos) recebeu a orientação de servir como escravo a seu primo Euristeu, rei de Micenas, para obter o perdão dos deuses por ter assassinado a esposa Mégara e os dois filhos que teve com ela. Essas, muitos sabem, são narrativas mitológicas - e a própria história do oráculo também é contada por um mito, como veremos adiante - , mas esse centro divinatório fez parte da vida material dos gregos e
suas ruínas estão lá para nos fazer reviver inúmeros episódios históricos ou simbólicos.

Durante pelo menos 10 séculos, o Oráculo de Delfos, também conhecido como o Oráculo de Apolo, foi uma das mais influentes instituições do mundo antigo, especialmente entre os séculos VIII e IV antes de Cristo. Era procurado por todos os povos do Mediterrâneo e de outras regiões do globo, desde o cidadão comum, que buscava orientações sobre saúde, dinheiro e amor, até governantes e generais que queriam conselhos a respeito de guerras e conquistas territoriais. O Oráculo teria previsto, por exemplo, a Guerra de Troia e a aprovação das leis democráticas de Athenas.

Como adquiriu a fama de acertar nas previsões, recebia de poderosos e até de governos agradecidos, grandes doações em ouro e prata. A riqueza era utilizada na ampliação e no embelezamento do complexo, que incluía templos, anfiteatros e até alojamentos para os sacerdotes. A uma certa altura, os presentes passaram a superar os gastos e a instituição acumulou um enorme tesouro.

"Sei que nada sei"


A fama do Oráculo de Delfos consolidou-se de tal forma, que quando uma previsão não se concretizava, acreditava-se que a resposta tinha sido mal interpretada.

Ao longo dos séculos houve casos de favorecimento dos poderosos que faziam doações, mas sempre no que diz respeito à preferência no atendimento, com colocação privilegiada nas filas. Até onde se sabe, nas poucas vezes em que as respostas foram influenciadas por acordos escusos, os corruptores foram desmoralizados e as pitonisas punidas.

Esse zelo pela veracidade das profecias e o seu potencial de acerto só faziam crescer o respeito ao oráculo. Até filósofos, que questionavam tudo, teriam acreditado em suas predições.

Platão, em seu diálogo "Apologia a Sócrates", diz que Querofonte, um dos discípulos de Sócrates, certa vez consultou o Oráculo de Delfos. Ele queria saber quem era o homem mais sábio da Grécia e a resposta foi Sócrates. Ao saber disso, Sócrates duvidou, pois não acreditava em seu próprio valor, e começou a entrevistar todos os homens sábios que conhecia na esperança de conseguir provar que o oráculo estava errado. Para sua surpresa, constatou que todos os entrevistados acreditavam saber muito sobre um ou mais temas, mas na verdade não sabiam tanto assim. Então concluiu que ele era realmente o mais sábio, por ter consciência de sua ignorância. E essa teria sido a origem da expressão "sei que nada sei".

Mergulhando no Oráculo


Tão impressionante quanto a reputação do oráculo e as histórias que o envolviam, era a experiência pela qual passavam  os visitantes antes de cada consulta. Para obter as respostas que buscavam, gregos e estrangeiros tinham que se purificar em uma fonte e passar por um longo corredor com monumentos dedicados a Apolo, como estátuas e pequenos templos que abrigavam tesouros sagrados. Logo no início dessa caminhada, eles se deparavam com um painel onde estava escrito: "Conhece-te a ti mesmo".

Ônfulo mais antigo, hoje no museu, e
 ônfulo mais recente nas ruínas
Em seguida, era preciso sacrificar uma ovelha ou uma cabra para que as entranhas desses animais fossem examinadas por sacerdotes em busca de sinais proféticos. Quando, finalmente, chegavam ao templo de Apolo, os visitantes podiam apresentar suas questões.

Há muitas versões sobre a maneira como isso ocorria. O que coincide em todas elas é o fato de as perguntas serem transmitidas, direta ou indiretamente, a uma mulher, que começava o dia de consultas se purificando em uma fonte sagrada e, antes de responder aos  visitantes, inalava gases alucinógenos ou mastigava folhas de louro. Outro ponto coincidente em todas as versões é que as respostas vinham sempre em forma de versos enigmáticos.

A maneira como ocorriam as consultas em Delfos está relacionada à narrativa mitológica que descreve a criação do oráculo e o seu funcionamento.

Ônfalo ou umbigo mundo


Conta o mito que Zeus, deus dos deuses e pai de Apolo, decidiu buscar o ponto médio do mundo e, para isso, soltou duas aves de pontos opostos e extremos: Leste e Oeste. As aves encontraram-se em Delfos, que foi designado como o centro da terra e recebeu  uma pedra oval denominada ônfalo (umbigo em grego). A aparência ovalada deve-se, provavelmente, à crença de que esse formato transmitia boas energias a quem o tocasse. 

O local pertencia originalmente a Gaia, a deusa da Terra, e era guardado por sua filha Pyton, uma figura mitológica  - descrita por uns como serpente e por outros como uma fêmea de dragão - que teria o poder de emitir previsões. Apolo matou o monstro, deixando seus restos mortais embaixo da terra em permanente decomposição e, com apoio de Zeus, tomou posse do lugar para ali construir seu oráculo. Os gases emitidos pelos restos de Pyton teriam o poder de provocar uma espécie de transe desde que inalados por mulheres de boa reputação escolhidas entre as camponesas, que tinham seus espíritos possuídos por Apolo para receber as previsões.

Aquelas que sucessivamente exerceram a  função divinatória receberam o nome de pítia ou pitonisa, em alusão à figura mitológica. Inicialmente, as pitonisas eram jovens, mas isso teria provocado raptos por parte de homens poderosos, então resolveram escolher para a função apenas mulheres de meia idade.

Racionalidade e êxtase místico


Nos primeiros tempos, as consultas eram feitas apenas uma vez por ano, na data do aniversário de Apolo, que cai em 7 de fevereiro, mas com o crescimento da demanda foi preciso alterar o calendário e o Oráculo passou a atender nove vezes por ano, um dia a cada mês, de fevereiro a outubro. Muitos  se perguntam por que somente nove dias de atendimento mensal se o ano tem doze meses. A resposta provável é que os outros quatro eram dedicados a outro deus, Dioníso, que também residia ali.

O espaço de Delfos mais identificado a esse deus e suas ações era o teatro localizado logo abaixo do templo de Apolo, que também encontra-se em ruínas. Nesse lugar foram realizados os Jogos Píticos, anteriores e bem mais amplos que os olímpicos, pois incluíam competições artísticas, nas áreas de teatro, música e poesia. O teatro de Delfos foi também , por muito tempo, a sede de festivais  artísticos.

No mês de novembro, cerimônias com dança, música e vinho eram realizadas em Delfos em homenagem a Dioníso. Conta-se que ritos secretos, envolvendo mulheres jovens, levavam seus participantes ao êxtase.  

Enquanto Apolo encarnava a razão, a beleza, a música e o controle, Dioníso representava o êxtase, a embriaguez, a reprodução e a sexualidade. Os gregos acreditavam que, por diferentes meios, ambos eram capazes de proporcionar o auto-conhecimento: um pela introspecção e o outro pelo vinho. A convivência entre dois deuses com qualidades aparentemente opostas fazia do lugar um espelho do ser humano com seus aspectos complementares e trazia equilíbrio ao lugar. 

Mito e realidade


Toda essa riqueza mitológica ficou perdida no tempo, guardada nos livros ou restrita a alguns grupos. Os oráculos também não fazem mais parte da vida dos gregos. Quem visita Delfos atualmente, pode ouvir de um guia que as pitonisas tinham truques para enganar o seu público. O mais repetido é relativo à consulta do sexo dos bebês. Elas informavam que a criança teria um determinado sexo e registravam nos arquivos o sexo oposto. Quando a previsão estava correta, não havia reclamação. Quando estava errada, a pitonisa usava o registro com o sexo trocado para provar que a mãe se enganou.

Esse ceticismo dominante na Grécia moderna em relação ao oráculo e aos mitos que o envolvem devem-se, principalmente, a uma mudança de mentalidade ocorrida ao longo dos séculos. A noção de mito que temos ordinariamente nos dias atuais é bem distinta da que tinham os gregos daquele período. Para eles, as histórias mitológicas eram estruturas narrativas, eram modelos, não no sentido moral de exemplo a ser seguido, mas no sentido de molde ou desenho que se repete. E os oráculos faziam parte da vida em sociedade. O filósofo Platão, em seu diálogo A República, chega a colocar um oráculo no centro da cidade ideal, embora não tivesse nenhum apreço pela religião.

Para os gregos, mito e realidade estavam intimamente ligados porque um dava forma ao outro e os oráculos, que pertenciam aos deuses, faziam parte daquela sociedade regida pelo sagrado. Hoje em dia, isso talvez possa ser visto em condição análoga à das religiões que lidam com mediunidade e à das correntes da psicanálise pois trabalham, cada grupo à sua maneira, com narrativas simbólicas e com o acesso a elementos invisíveis. Somente conhecendo um pouco dessa forma de pensar, teremos a chance de compreender o que se passava em Delfos.


Oráculo de Delfos - Delfos - Monte Parnaso - Grécia 

Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos: Márcia Andrade de Almeida, Dinorah Regis e Sylvia Leite

Observação: Esta matéria resultou de uma visita a Delfos e de leituras diversas, mas também de uma troca de ideias com o artista e curador de artes visuais Gilberto Habib de Oliveira.
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17 comentários:

  1. Demais, Sylvinha! Deu saudade da Grécia e de toda a magia desse país incrível!

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  2. Muito bom texto, Sylvinha. Contribuiu para apreciar melhor a visita recente que fiz a Delfos e aumentar a curiosidade pelo intricado da Mitologia

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    1. Obrigada, Jane. É uma honra receber esse tipo de elogio de uma escritora. Beijo

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  3. Marcia Andrade de Almeida12 de outubro de 2018 06:50

    Adorei Silvinha. Como disse Jane você complementou o que nos foi informado.

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    1. Que bom que gostou, Márcia, afinal essa matéria foi feita em parceria com você, que disponibilizou suas belas fotos. Obrigada, e agora que já aprendeu o caminho, volte sempre. Beijo

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  4. Lindo Texto com uma viagem de primeira classe , Parabéns Silvinha ������ Marcelo

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  5. Jung em suas pesquisas utilizou de oraculos para chegar ao inconsciente. A Grecia Antiga tem uma riquesa de conhecimento que não chegamos a esgotar. Parabéns Sylvia por nos enriquecer um pouco mais. Adorei.
    Augusta Leite Campos

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  6. Adorei as explicações sobre este tesouro maravilhoso da antiguidade grega. As fotos também. É como se estivesse presente, vivenciando este momento mágico.

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    1. Obrigada pelo comentário. Pena que você não se identificou. Da próxima vez escreva seu nome ao final da mensagem.

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