31/10/2018

Candeal: desenvolvimento social ao som dos tambores

Muita gente conhece ou ouviu falar na Timbalada - uma banda baiana surgida no comecinho da década de 1990, que ganhou repercussão
internacional pelo ritmo dançante e por ter como ícone um instrumento pouco conhecido e até então marginalizado: o timbau. O que talvez poucos conheçam é o movimento social surgido na esteira  do sucesso alcançado pelos timbaleiros. Em parceria com diversas instituições, a comunidade do Candeal Pequeno, que já foi uma das mais pobres de Salvador, ganhou e segue conquistando sustentabilidade. E como diria Caetano, "é bonito de se ver".

Além da beleza intangível, expressa pelas oportunidades oferecidas a milhares de jovens, pela afirmação da cultura ancestral do bairro e pela melhoria na qualidade de vida da população, os projetos sociais trouxeram beleza estética. Casas foram pintadas pelos próprios moradores com tintas coloridas, locais públicos e comerciais receberam grafitis ou mosaicos.  As ruas pelas quais taxistas se negavam a passar viraram cenário para a gravação de clipes.

Timbau - o instrumento da libertação


Tudo começou com o resgate do timbau, instrumento baiano inspirado no Caxambu - tambor cerimonial utilizado em uma manifestação afro-brasileira denominada Jongo. A proposta, segundo declarações públicas do idealizador da Timbalada, Carlinhos Brown, foi retomar a cultura angolana e propor um novo ritmo usando o som da percussão.

Era o começo dos anos 1990, momento em que os trios elétricos estavam incorporando o samba-reggae dos blocos afro, como Ilê Aiyê e Olodum, e os tambores, antes restritos às periferias e bairros pobres de Salvador, chegaram também às classes mais altas que já corriam atrás dos trios desde a década anterior. Do carnaval, os blocos afro foram às gravadoras. O caminho estava aberto para os tambores, mas a Timbalada seguiu pela contramão, invertendo o roteiro seguido por outros grupos de percussão: primeiro se lançou como banda para depois criar o bloco, o que só ocorreu no carnaval de 1995.

A música afro-baiana revolucionou a hierarquia dos músicos, elevando o percussionista de uma condição secundária, de acompanhamento, à condição de criador, e abrindo espaço para sua participação em festivais e prêmios internacionais. Mas a consequência principal foi o empoderamento conquistado por esses grupos, que acabou se refletindo nas respectivas comunidades de origem, como é o caso do Curuzu, do Ilê Aiyê, e do Candeal, da Timbalada.


O milagre dos timbaleiros


Para entender o que a virada dos tambores representou para a comunidade do Candeal Pequeno, é preciso conhecer um pouco a história do lugar.

O Candeal é uma área do bairro de Brotas, localizado em uma região nobre e central de Salvador, e está dividido em duas partes: o Candeal Grande, que é um bairro de classe média e o Candeal Pequeno que é a comunidade onde nasceram Carlinhos Brown e a Timbalada.

Conta-se que o local começou a ser povoado no século 18. No início era uma senzala e foi comprado pela escrava alforriada Josefa Santana que voltou da África para libertar seus parentes. Como era muito rica, pagou pela liberdade de vários negros e, com eles, deu início a uma plantação de cana-de-açúcar.


Moradores e estudiosos calculam que ainda existam no local cerca de 250 descendentes seus, mas a época de bonança foi se perdendo ao longo do tempo. A comunidade atual ocupa uma área de aproximadamente 20 mil metros quadrados, onde vivem cerca de 1.500 famílias de baixa renda, cercadas por bairros de classe média e alta.

Antes de Carlinhos Brown começar a implantar seus projetos sociais, o local não tinha calçamento, nem saneamento básico, nem posto de saúde. Quando chovia, as ruas ficavam cobertas de lama.
Por sorte dos moradores, a degradação não atingiu os valores culturais, resguardados por meio das serestas e dos terreiros de Candomblé que os moradores frequentava. O próprio Carlinhos, quando era criança, batucava nas latas que usava para ir buscar água na bica. E, como ele, muitos outros, de várias gerações, cresceram fazendo e ouvindo batuques, ora de lata, ora de tambores. E tudo isso foi fundamental para o reerguimento da comunidade.

Uma série de ações educacionais e de desenvolvimento integrado, aliadas ao talento musical dos moradores, transformaram a realidade do Candeal em poucos anos. Para coordenar o trabalho, foi criada a Associação Pracatum de Ação Social, que atua em dois eixos principais: o programa de desenvolvimento Tá Rebocado e o Programa de Música, Educação e Cultura.

A parte de ação social é voltada para a urbanização e a implantação de serviços no bairro. Inclui também o projeto Recicle óleo, que tem caráter ambiental, mas sua principal função é promover a inclusão produtiva de mulheres da comunidade na fabricação de sabão e no refinamento de óleo de gordura residual (OGR) para a produção de biodiesel.

No eixo educacional, a Escola de Música Pracatum, formou em menos de 30 anos cerca de 5 mil percussionistas, do Candeal e de outros bairros de Salvador, muitos deles já absorvidos pelo mercado de trabalho no Brasil e no exterior.  A escola realiza ainda cursos e oficinas nas áreas de comunicação e tecnologia e, a pedido das famílias,  mantém uma escola de Inglês.

O Candeal também ganhou uma casa de shows Candhyall Guetho Square (mais conhecida como o Guetho) onde havia constantes apresentações e a Timbalada ensaiava aos domingos, sempre com plateia lotada por baianos e turistas, mas as atividades não puderam continuar porque incomodavam os moradores dos bairros vizinhos.

Atualmente, funciona no local um estúdio de gravação de Carlinhos Brown e o Cantinho da Tita - restaurante de dona Madá, a mãe do timbaleiro, que só atende com reserva e serve pratos baianos feitos na hora. A espera é grande, mas ninguém reclama porque o tempo de preparo das refeições costuma ser pouco para os visitantes conhecerem, ou revisitarem, todos os espaços do Guetho. O local reúne referências de diversas religiões e fraternidades, como a maçônica, por exemplo, além de sinais de trânsito, detalhes dos mais diversos estilos arquitetônicos, uma carcaça de foguete restaurada e poemas estampados nas paredes.

Como era de se esperar, a virada do Candeal encantou pessoas pelo mundo afora. O bairro recebeu visitas de dirigentes internacionais como o Ministro da Cultura e Mídia da Alemanha, Bernd Neumann e de monarcas, como o rei Felipe VI da Espanha que na época da visita ainda era príncipe. Foi tema do documentário "El milagro de Candeal" dirigido pelo espanhol Fernando Trueba e recebeu muitos prêmios, entre eles o "Beste Practice" das Nações Unidas, o de "Mensageiro da verdade", da ONU Habitat, e o de reconhecimento pelo trabalho artístico e social, da Fundação Claus Awards, da Holanda. 

Candeal Pequeno - Brotas - Salvador - Bahia - Brasil


Texto: Sylvia Leite 
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 
    Fotos: Sylvia Leite

    Referências:
    Site da ONG Pracatum
    Site de Carlinhos Brown
    Filme: "El milagro de Candeal", de Fernando Trueba 
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    16 comentários:

    1. Candeal maravilhoso! Estive lá, há alguns bons anos, com Claudia, conversamos com Carlinhos Brown e conhecemos o lindo trabalho dele. Belo registro, Sylvinha! Beijos!

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      1. Obrigada, Soninha.pelo comentário e pela assiduidade. Beijos

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    2. Que beleza, Sylvinha!Tanta coisa boa que precisa ser muito divulgada para nós dar alegria e esperança no futuro do País! Suas escolhas de Lugares de Memória são sempre surpreendentes e encantadoras. Textos concisos e muito informativos, ao mesmo tempo. Parabéns!

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      1. Obrigada,Jane. Bom te ver por aqui. Volte sempre. Beijos

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    3. Não conheço o Candyal, mas fiquei interessada em ir até lá, pela história que você descreveu. Tá na minha lista obrigada Sylvia. Beijos

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    4. Parabéns Silvia!
      São maravilhosos e de bom gosto todos blog 'lugares de memória' que vc posta. Gilca

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      1. Obrigada, Gilca! Fico feliz com sua assiduidade. Beijos.

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    5. Só mesmo a arte para manter acesa a chama ancestral!
      Texto delicioso de ler, Sylvinha!
      ❤❤❤ Val

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    6. Esse projeto é muito bom! Seu padrinho maior, o Carlinhos Brown usou da sua fama, vivência e amor pelo seu local em benefício dessa comunidade. O Gueto Square virou point da jovem elite baiana e turistas abonados, que é questionável... Tudo bem que precisavam captar recursos, mas os dólares foram mais valorizados, e como! que o nosso parco Real. Cobravam "entradas" caríssimas e consumo de bar pra poucos. Não é espaço para "todos" os baianos...
      Esse restaurante da mãe de Brown, deve ser pra Popstars, rsrs.
      Mas, queira ou não, a valorização e empoderamento desta Comunidade foi um ganho que não podemos dimensionar.
      Essa matéria me incentivou a ir lá visitar de perto! Ótima matéria! Laís Alves

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      1. Obrigada pelo comentário, Laís. Bom saber que a matéria despertou o seu desejo de conhecer o Candeal. Sempre tive vontade e quando conheci me encantei. Espero que aconteça o mesmo com você. Quanto ao público do Guetho, eu gostaria de fazer algumas considerações. Não posso falar nada sobre os shows, porque infelizmente nunca tive a oportunidade de ir a nenhum, mas posso falar do restaurante, porque almocei lá agora em setembro. É um restaurante muito simples, com mesas no pátio e comida caseira. Não diria que os preços são populares, como ocorre em por exemplo em restaurantes subsidiados (os famosos bandejões), mas são bastante acessíveis e mais baixos que em muitos restaurantes por quilo Brasil afora. Torço para que consiga ir e e depois nos conte o que achou. Grande abraço.

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    7. Bem legal!! Não conhecia... bem interessante!! Beijos querida Ude

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    8. Sou fa do Carlinhos Brown. Não sabia nada sobre o Candeal Pequeno. Morei em Salvador de 1977 a 1982 e nunca ouvi referência a ele. Parabéns Sylvia por nos levar a esse universo. Augusta Leite Campos

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      1. Obrigada, Gusta. Bom saber que gostou da matéria e que com ela adquiriu novas informações. Quinta que vem tem mais. Beijos

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