06/09/2018

Museu Nacional: a memória em cinzas

ESPECIAL


Em protesto contra o descaso e em defesa da preservação da memória, o tema desta semana é o Museu que guardou nossa História Natural e outras importantes coleções por mais de 200 anos e agora precisa tornar-se símbolo de nossa resistência.

O incêndio não pode ser esquecido

Foto: Mauro Cury

Se as chamas nos levaram grande parte de um acervo com mais de 20 milhões de peças, se já não temos o crânio de Luzia, nem as múmias, nem os dinossauros; se perdemos a Biblioteca Francisca Keller (de Antropologia) 
construída ao longo de 50 anos e a maior coleção de Egito Antigo da América Latina, precisamos não apenas resgatar a memória do que ardeu nas chamas do descaso, mas manter acesa a memória das próprias chamas, para que não se repitam.

Este é o terceiro museu consumido pelo fogo em menos de uma década no Brasil e ainda temos por aqui cerca de 3.700 outros que não podem ter a mesma sina.

O Museu Nacional 


O Museu Nacional é a mais antiga instituição científica do País. Foi criado por Dom João VI em 1818 e, desde 1946, está incorporado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, que antes se chamava Universidade do Brasil. O prédio incendiado no domingo fica na quinta da Boa Vista, bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro.

Talvez nos console saber que a Ciência e a Cultura já tiveram outro tratamento por parte dos governantes. Muito do que restou, e também do que se perdeu, foi parar ali por intermédio de Dom Pedro II, último imperador do Brasil, que era considerado um patrono da Ciência e da Educação. 

O Meteorito de Bendegó é exemplo disso. A pedra tinha sido achada cerca de cem anos antes em Campo Santo, no sertão da Bahia.O imperador tomou conhecimento de sua existência ao visitar a  Academia de Ciências de Paris e criou uma comissão de especialistas para levar o meteorito até o Rio de Janeiro onde acabou se tornando a obra de boas-vindas do museu.

O prédio do Museu Nacional, como muita gente sabe, era residência da família real até a proclamação da República. Enquanto morou ali, Dom Pedro II constituiu um museu particular que ocupava quatro salas e ficou conhecido como Museu do Imperador ou Gabinete de Curiosidades do Monarca. Os convidados do palácio tinham oportunidade de conhecer as peças guiados pelo próprio imperador.

O acervo teve início com a junção de diferentes coleções herdadas
de sua mãe, a Imperatriz Leopoldina: um herbário e os gabinetes de
Mineralogia e Numismática.

Com o tempo, foram acrescentadas peças recebidas de visitantes ou trazidas de viagens, entre as quais encontra-se uma Torá tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e considerada um dos dez documentos mais antigos do Judaísmo. O manuscrito hebraico, conhecido como Pergaminhos Ivriim, é composto por nove rolos e deve ter sido escrito entre os séculos 11 e 17.

Também fazia parte do Museu do Imperador, a múmia da cantora Egípcia Sha-Amun-Em-Su, da XII dinastia, que viveu em cerca de 750  a.C. e a cabeça mumificada de um guerreiro da tribo Jívaro, da região do Equador, de tamanho comparável a de um recém-nascido, que teria ficado assim em consequência de uma cerimônia que consistia em reduzir a cabeça do inimigo.

Do Brasil, a coleção incluía, entre outras raridades, um conjunto de três múmias indígenas - um adulto de 25 anos e duas crianças - descobertos em Rio Novo, Minas Gerais.

Além da importância em si, as peças do monarca teriam motivado a construção de uma via férrea para transportá-las, quando veio a República, do Palácio (onde morava Dom Pedro II e onde se localiza hoje o museu incendiado) até o Campo de Santana (primeiro endereço do Museu Nacional). Mas a obra demorou e, quando ficou pronta, houve uma inversão. O Museu Nacional é que foi levado do Campo de Santana para São Cristóvão e se apropriou tanto do Palácio como das peças do Museu do Imperador.

A contribuição de Dom Pedro não se resumiu ao transporte do meteorito e à herança de seu acervo particular possibilitadas pelo fim do Império. Durante seu reinado, o Museu Nacional tornou-se o maior centro de História Natural da América do Sul graças às peças que ele trazia de suas viagens e à modernização que promoveu, com investimentos nas áreas de Antropologia, Paleontologia e Arqueologia.

Dom Pedro II era considerado um patrono das Artes e das Ciências. Tornou-se o primeiro fotógrafo brasileiro ao adquirir, em 1840, uma câmera de daquerrótipo. Foi o criador das bolsas de estudos para brasileiros no exterior. Criou o Instituto Histórico e Geográfico e o Colégio Pedro II e a Imperial Academia de Música e Ópera Nacional . Segundo registros históricos, teria feito, certa vez, a seguinte declaração: "Se não fosse imperador, gostaria de ser um professor. Não conheço tarefa mais nobre do que direcionar as jovens mentes e preparar os homens de amanhã".

O que fica 


Das cinzas, nasce uma consciência nacional de que temos história, temos ciência, temos universidades e de que tudo isso precisa ser preservado. 

Aos poucos, surgem notícias mais otimistas. Pelo menos uma parte das coleções científicas que constituem base de pesquisa para os seis programas de pós-graduação foi poupada porque não estava no prédio principal. Alguns laboratórios também escaparam pela mesma razão e outros, que foram atingidos, tiveram vários equipamentos resgatados. Um professor do Departamento de Vertebrados conseguiu retirar do prédio, com o incêndio já iniciado,
exemplares de moluscos considerados insubstituíveis. Por tudo isso, os alunos de mestrado e doutorado provavelmente não terão seus trabalhos interrompidos.
Biblioteca Central, que reúne cerca de 500 mil títulos, entre os quais estão quase 2 mil obras raras, está intacta e, diante da massiva divulgação do incêndio, tornou-se muito mais conhecida. De agora em diante, provavelmente será mais visitada e protegida. Seu endereço é o Horto Botânico.

A Torá de Dom pedro II também escapou das chamas. Tinha sido retirada do prédio antes do incêndio para restauração e, segundo informações divulgadas esta semana, encontra-se
na seção de Obras Raras da Biblioteca Central.

Restaram ainda o Meteorito de Bendegó, de quatro bilhões e meio de anos e mais de cinco toneladas, o de Santa Luzia, que pesa quase duas toneladas - ambos compostos em grande parte por ferro e outros menores resgatados por funcionários e pesquisadores. Os dois maiores estavam no centro do fogo e nada sofreram.

Bendegó, coincidentemente, foi achado na região de Canudos, terra símbolo da resistência.

Museu Nacional - Quinta da Boa Vista - São Cristóvão - Rio de Janeiro - Brasil

Texto: Sylvia Leite 
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos: Mário Cury e Divulgação.
  • Para saber mais:
  1. Site oficial do Museu Nacional
  2. Museu nacional - Wikipedia 
  3. Um passeio pelo Museu Nacional da UFRJ


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14 comentários:

  1. Nada fere mais o propósito da cultura de um povo quando ele é aviltado em sua memória, quando esta é tratada com descaso. Que mais essa tragédia nos una em defesa de nossa história e de nossas raízes. Parabéns pela postagem.

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  2. Brigitte.oliveira@ yahoo.fr6 de setembro de 2018 14:32

    Obrigada Silvia por essa grande lição de história sobre o museu,a grandeza de Dom Pedro II e seu valioso legado para o país! Tragédia acarretada pelo descaso que nos deixa com indignação , mágoa e profunda tristeza!

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    1. Sim, e o pior é que querem tirar o museu da UFRJ, ou seja, acabar com a pesquisa.

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  3. Repetindo...de arrepiar seu texto. Qual político do famigerado Centrao tem um décimo da envergadura de um D.Pedro II?

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  4. Sylvia a história foi muito bem contada com suas palavras e Dom Pedro II parece-me sempre um governante além de seu tempo e também do nosso tempo. Dificil não sentir admiração e carinho por esse homem que foi destituido do poder e cuja memória foi ameacada de ser destruida pelo fogo, mas que paradoxalmente surge mais forte e mais inesquecivel. Augusta Leite Campos

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    1. Você tem razão, Gusta. Como dizem os antigos da nossa família, ele era formidável!!

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  5. Que pena que o descaso dos nossos governantes tenha colaborado para esse triste acontecimento. Vi que conseguiram juntar os fragmentos do crânio de Luzia e vão tentar reconstruir. O Meteorito de Bendegó e mais algumas coisas. Muoto boa sua reportagem. Parabéns.

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    1. Obrigada, Maria Helena. Volte sempre. Todo quinta tem matéria nova no blog.

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  6. Letícia Carlos Giacomin3 de dezembro de 2020 16:33

    Realmente o que aconteceu com o Museu Nacional é algo que ficará gravado em nossa história para sempre! E, de certa forma, não deve ser esquecido mesmo para ficar de exemplo! Eu tive a chance de conhecê-lo. Obrigada pelo post! Muito explicativo!

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