27/09/2018

Kolam: uma oração visual estudada pela Informática

Ao amanhecer, milhares de mulheres do Sul da Índia têm um compromisso inadiável: desenhar figuras geométricas nas soleiras de suas casas para que a deusa Lakshmi, da prosperidade, proteja os moradores e seus visitantes. Com o passar das horas, o vento, a chuva e o vai-e-vem das pessoas apagam quase tudo, mas no dia seguinte outros desenhos são traçados, compondo uma nova oração visual.

Os Kolams - nome dado aos diagramas em sua região de origem - são tradicionalmente desenhados com pó de arroz sobre a terra batida com a qual se mistura esterco de vaca. Antes de começar o trabalho, o terreno é varrido, alisado e umedecido para aumentar a fixação. A maioria dos desenhos é feita com linhas brancas, mas em algumas ocasiões usa-se também um pó de terracota para tornar os traçados bi-colores.

Cada material tem sua função ou significado. A terra, que serve de suporte aos diagramas, representa a si mesma, como mãe e nutridora. Já a proteção, em seu sentido material, seria fornecida pelo esterco de vaca - animal sagrado dos hindus - que segundo uma crença local tem funções antissépticas. O pó de arroz, além de simbolizar o alimento humano, é capaz de atrair formigas, pássaros e outros pequenos animais, proporcionando uma convivência harmoniosa logo na entrada da casa.

Nas aldeias menores, mantém-se o suporte de terra com esterco e pó de arroz puro, já nas cidades ou localidades maiores há quem desenhe sobre pisos de quartzo e até de cimento, com o pó de arroz  misturado a pó de pedra branca, uma forma de ganhar praticidade e adaptar a tradição aos novos tempos. Mas seja na forma autêntica ou na modernizada, as mulheres costumam aderir em massa a essa tradição, não importando qual a sua idade, classe social ou nível de instrução, especialmente no estado de Tâmil Nadu, o local de origem do ritual, que fica mais a Sudeste.



Cultura milenar

Os habitantes de Tâmil Nadu são denominados tâmeis. Eles têm origem dravídica e foram provavelmente os primeiros a habitar a Índia de forma contínua, há cerca de 2.500 anos. Nesse estado, o Kolam é tratado como um importante elemento na educação das meninas, e deve ser repassado oralmente de geração a geração. Quem assume a responsabilidade da transmissão são as mulheres mais velhas da família que ensinam às mais novas tudo o que é preciso saber para executar os desenhos: desde a variedade de formas e as ocasiões em que cada uma delas pode ser usada, até o passo a passo de como traçá-las. Mas antes disso, as meninas são treinadas para desenvolver destreza, disciplina mental e capacidade de concentração.

Os Kolams são compostos por curvas riscadas ao redor de pontos, formando uma espécie de renda, que não se sabe onde começa nem onde termina. Há também um segundo tipo que une os pontos, ao invés de contorná-los. Cada um deles possui seus próprios segredos e significados, mas uma regra é comum a todos: as linhas devem descrever ciclos fechados porque, segundo a crença local, isso impede que os maus espíritos tenham acesso ao interior das formas, da casa e das pessoas que ali transitam. Os ciclos simbolizam, ainda, a trajetória da vida que repete infinitamente as etapas e nascimento, crescimento e morte. Os Kolams podem ser riscados não apenas nas soleiras, mas também em pátios e altares.

Em várias partes da Ásia é possível encontrar traçados geométricos comparáveis aos Kolans, mas que se diferenciam tanto pelas formas e cores como pelos materiais, significados e procedimentos, além de serem conhecidos por nomes variados como Rangole, Aripan, Mugu e Alpana. Como houve emigração de tâmeis para várias partes da Índia e também para outros países, como o Sri Lanka, é possível que essas práticas tenham uma origem comum.


Da tradição à informática


Tâmil Nadu abriga harmoniosamente realidades que poderiam ser consideradas contraditórias. Por uma lado, conserva praticamente intacta a cultura milenar de seus ancestrais, incluindo o idioma Tâmil que é o mais falado no local. Por outro, é um dos estados mais industrializados da Índia e tem como prioridade o desenvolvimento da indústria de tecnologia da informação.

Com o Kolam, também ocorre uma espécie de polaridade. Elementos matemáticos presentes em sua estrutura, como simetria, repetição de motivos e formação de redes, conseguem servir simultaneamente a dois propósitos aparentemente opostos: do ponto de vista da tradição, simbolizam proporções ou modelos cósmicos, usados para criar harmonia, equilíbrio, prosperidade, e outros benefícios, baseados em conceitos mágicos, filosóficos ou religiosos. Quando olhadas por estudiosos de informática, como a equipe de Gift Siromoney, do Colégio Cristão de Madras, em Tâmil Nadu, constituem linguagens gráficas e têm contribuído para a relização de trabalhos nas complexas áreas dos algoritmos e das gramáticas de redes.

Kolam - Tamil Nadu - Índia 

  • Fotos: Sylvia Leite, Marisa Portela, Célia Leme e Logga Wigler/Pixabay
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10 comentários:

  1. Maravilhoso Sylvia! Obrigada por mais uma viagem inusitada!
    Bjs, Laura

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    1. Obrigada, Laura! Todo quinta tem postagem nova, Volte sempre. beijos

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  2. Impressionante esse conhecimento milenar e sua conexão com as ferramentas atuais da informática. |Parabéns, Sylvia, beijos

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    1. Obrigada, Vi. Esse assunto é mesmo fascinante. Compartilhei lá na nossa página dos padrões geométricos por que sei que as pessoas vão gostar.

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  3. Parabéns Sylvia
    Seu trabalho está impecável
    Pablo

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  4. Que riquissima e bela tradição o Kolam. Temos falado tanto no Brasil sobre o Combate à violencia. Precisamos aprender com a India e sua cultura milenar. Desde criança as meninas aprendem com o Kolam a terem disciplina mental e a se harmonizarem com a natureza. Esses sao dois grandes pilares para a Paz.
    Augusta Leite Campos

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    1. É verdade, Gusta, os costumes dessas sociedades tradicionais sempre têm uma consequência prática muito positiva, além de serem lúdicos e lindos. Já pensou que delícia ter esses desenhos na entrada de casa todos os dias? Não tem depressão que sobreviva.

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