07/06/2018

Conservatória: uma canção em cada casa

Blog lugares de memória - matéria ConservatóriaImagine se você colocasse na porta de casa uma placa com o nome de sua música favorita. Agora sonhe mais um pouquinho e pense como seria se nas noites de sexta e sábado os violeiros da cidade viessem cantar essa música para você. Pode parecer coisa de literatura, mas em Conservatória, no interior do Rio de Janeiro, isso faz parte da rotina.

Blog lugares de memória - matéria ConservatóriaQuando chega o fim de semana, os músicos se reúnem para fazer seresta, que é a cantoria em ambiente fechado, entre 9h e 10h30 da noite. A partir das 11h a festa é na rua, em pleno sereno, e por isso se chama serenata. Os violeiros circulam a pé e param diante das janelas para tocar as músicas sugeridas em cada plaquinha. Não dá para atender todo mundo porque são mais de 400 placas. Quase toda casa do centro tem a sua.

História e histórias


Blog lugares de memória - matéria conservatóriaA tradição vem de longe. Os primeiros músicos chegaram ao local no século 19, durante o ciclo do café. Eram professores de piano e violino e estavam ali para garantir a formação musical das famílias de fazendeiros. À noite, quando havia lua, eles se reuniam na praça da matriz para tocar e cantar.
As serenatas de porta em porta só iriam surgir no século seguinte. No começo eram feitas em frente a um casarão. Depois os músicos começaram a se deslocar pelas ruas e cantavam até altas horas em homenagem a amigos e namoradas.

Blog lugares de memória - matéria ConservatóriaConta-se que nessa época houve um fato curioso: o fazendeiro Antônio Castelo Branco, de um povoado viznho, transportou um piano por cerca de 20 km em cima de um caminhão para fazer uma serenata romântica. O destino era a casa de uma jovem de Conservatória conhecida como Lindoca com quem o fazendeiro desejava se casar.  A estratégia deu certo e o pedido de casamento ao som de piano tornou-se, por muito tempo, o principal assunto da cidade.


Em toda casa uma canção



A ideia das plaquinhas veio dos irmãos José Borges e Joubert, que embora fossem do Rio de Janeiro, frequentaram Conservatória durante muitos anos e hoje são lembrados como seresteiros históricos, ao lado de seu antecessor Emérito Silva (Merito) e tantos outros, talvez menos famosos mas igualmente importantes.

A proposta era imortalizar os compositores gravando seus nomes junto aos nomes de suas músicas em placas que seriam colocadas nas principais  esquinas de Conservatória. A aceitação foi tão grande que as placas passaram das esquinas para as casas.

O projeto era coordenado pelo Museu da Seresta e da Serenata criado pelos irmãos violeiros. Quem desejava ter uma placa na porta de casa precisava cumprir algumas etapas. Primeiro, escolher a música. Em seguida, verificar se ela não estava em nenhuma outra placa. A outra condição é que a música escolhida fizesse parte do cancioneiro popular.

Atualmente, a seresta é comandada por Edgard Cariêlo Vilela, o Edgard Seresteiro, que promete
retomar o projeto das plaquinhas para que mais moradores tenham o privilégio de ter uma música de sua escolha tocada na porta de casa. Assim como nos velhos tempos, cada plaquinha deverá ser inaugurada ao som de voz e violão.

De olho no futuro


Na época de José Borges e Joubert muitos temiam que com sua morte a tradição das serestas e das serenatas desaparecesse, mas os dois irmãos já partiram há algum tempo e o que se viu foi um crescimento da programação.

http://www.espacosonora.com.br/Além das serestas e serenatas, agora são feitas também as solenatas, chamadas assim porque saem em plena luz do dia, geralmente no domingo de manhã, quando os visitantes se despedem do fim de semana.

A fama de cidade musical fez com que Conservatória fosse ganhando, ao longo dos anos, novas manifestações. Uma delas é o carnaval antigo, realizado no mês de outubro, com músicas que já não são mais tocadas em outros lugares. Outra é o chorinho, que atrai multidões, especialmente nos sábados à tarde.

A cidade abriga também alguns museus dedicados a compositores como Sílvio Caldas e Vicente Celestino. Tem ainda um teatro que busca resgatar a memória da musica popular brasileira por meio da história de seus cantores.

Por trás de toda essa efervescência, esconde-se um trabalho silencioso, idealizado pela cantora Juliana Maia, que poderá garantir não apenas a sobrevivência das serenatas, mas a sustentação do perfil musical de Conservatória por uma nova geração de músicos. É um grupo de amigos incentivadores da cultura que proporciona aulas gratuitas de violão e violino para crianças e adolescentes da cidade.

Conservatória - Valença - Rio de Janeiro - Brasil


As fotos das placas nas fachadas das casas são de Juliana Maia.
-----------------------------------------------------
Deixe um comentário a seguir e, se gostou, divulgue esta postagem em seus perfis nas redes sociais. Nos quadradinhos abaixo, você pode clicar em sua rede preferida e compartilhar diretamente.

Para ler sobre outros lugares de memória, clique nos links abaixo:

28 comentários:

  1. Ah...Conservatória... maravilhosa! Ótimo registro, Sylvinha!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Morei do ladinho, em Ipiabas. Adorava passear pelas ruas e sonhar em ter uma casa com uma plaquinha de música na frente. Boba, né?

      Excluir
    2. um sonho maravilhoso, sem dúvida!

      Excluir
    3. Pois ja estou sonhando em morar uma casinha assim...

      Excluir
    4. Faça isso e me convide para passar um fim de semana rsrsr

      Excluir
  2. Mais uma vez surpreendendo, amiga. Com essa linguagem impecável, e essas temáticas pitorescas, vamos fazendo da leitura breve uma nutrição.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Pablo. Assim você me faz chorar rsrsr Beijo.

      Excluir
  3. Que legal a tradição ter continuado. Lindo lugar e linda história!

    ResponderExcluir
  4. Legal. Nunca tinha ouvido falar. A semelhança com "conservatório" (musical) será mera coincidência ? :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu sempre pensei que sim, que esse nome tivesse alguma relação com conservatório de música. Conheço a cidade há mais de 30 anos. Mas agora que fui fazer a matéria vi que não. A palavra Conservatória, nesse caso, tem o sentido de cartório de registro porque lá eram feitos os registros pessoais dos integrantes de uma tribo indígena.

      Excluir
  5. É difícil de acreditar que exista um lugar como esse! Que a tradição continue viva!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É verdade, Carlos. Eu sempre fiquei muito impressionada com isso. E as plaquinhas nas casas são 'demais', não é?

      Excluir
  6. Encantada com essa reportagem sobre essa cidade musical, pode ser até chamada assim. Não tinha conhecimento dela. Parabéns prima, você sabe fazer muito bem o seu trabalho e passar todas essas maravilhas para termos mais conhecimento das coisas e lugares bons e bonitos do nosso Brasil. Obrigada.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu que agradeço pelo seu comentário e pela sua constância aqui no blog. Beijão, querida!

      Excluir
  7. Adorei, Sylvinha!!
    Excelente expressão da delícia que é estar em Conservatória, com toda essa sua peculiaridade. E, como bem colocado pelo amigo a cima, uma nutrição para quem lê, pois mesmo frequentadora assídua, desconhecia essas curiosidades adoráveis sobre as plaquinhas e o pedido com piano.
    Ainda mais encantada pelo lugar!!
    Obrigada, e parabéns
    Janaína Zappa

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Jana. Bom ouvir isso de quem vive ao lado e conhece bem Conservatória. Obrigada pelo comentário. Beijão

      Excluir
  8. Essa postagem reforçou a vontade de conhecer Conservatória, cidade tão famosa por sua musicalidade. Parabéns

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Valeu, Neilton! Você vai gostar. É linda! beijo

      Excluir
  9. Conhecia a cidade de ouvir falar e, apesar de morar perto (Rj) acabei nunca indo .. o tema despertou a vontade de ver com os próprios olhos o que você nos contou nesse texto instigante e (sempre) bem escrito ..! 😘😍

    ResponderExcluir
  10. Sem palavras que contenham tudo o que essa postagem expressa! Maravilha é pouco. vou fazer umas plaquinhas pro meu portão... bjs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Faça mesmo, Hilda. Acho que vou fazer uma para a minha também. Uma não, cinco hehehe

      Excluir