06/09/2020

The Wall: um memorial vivo que homenageia milhares de mortos

Foto Monica Volpin por Pixabay - Matéria The Wall - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
O memorial conhecido como The Wall, localizado no Constitution Gardens, em Wahsington, poderia ser apenas um dos três monumentos erguidos em homenagem aos mortos na Guerra doVietnã – o que por si só já lhe daria um peso considerando-se as polêmicas que envolveram o conflito – mas acabou convertendo-se em símbolo nacional e em uma das mais respeitadas obras da arquitetura norte-americana. A razão de todo essa projeção está, provavelmente, em sua concepção: o monumento parece ter sido pensado para interagir com os visitantes, transmitindo a eles, pelos sentidos da visão e do tato, a extensão da guerra e de suas consequências, além de possibilitar uma espécie de encontro com as vítimas.

Trata-se de uma parede de granito preto, dividida em duas partes dispostas em ‘V’, cada uma com mais de 70 metros, onde estão escritos, em baixo relevo, os nomes dos mais de 58 mil soldados mortos ou desaparecidos durante os 20 anos que abarcaram a guerra e seus preparativos. A superfície polida do granito faz com que os visitantes vejam-se refletidos sobre os nomes e experimentem a sensação de integrar, ainda que momentaneamente, aquela realidade.
Foto Saildancer por Pixabay - Matéria The Wall - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Mas a interação com “O Muro” não termina aí. Os nomes inscritos em baixo relevo podem ser decalcados em papel, com lápis ou giz de cera, e levados como recordação*. No caso de visitantes sem qualquer envolvimento com as pessoas reverenciadas, o ato pode ter apenas um caráter lúdico e de interatividade. Já para os parentes e amigos das vítimas, ou para os que vivenciaram de alguma forma o momento histórico da guerra, acaba ganhando um caráter de ritual.

A inscrição dos nomes foi feita em ordem cronológica de confirmação da morte ou 
Foto snvderico3 por Pixabay - Matéria The Wall - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
desaparecimento de cada homenageado. Os que tinham morte confirmada eram assinalados com a figura de um diamante. Os que estavam desaparecidos recebiam uma cruz. Os desaparecidos que tiveram suas mortes confirmadas posteriormente receberam o diamante sobre a cruz. E há uma terceira marcação para o caso de algum dos desaparecidos ser encontrado com vida. Nesse caso, a cruz ao lado de seu nome receberia um círculo para indicar que, embora tenha desaparecido por um tempo, tinha sido resgatado com vida. Mas, infelizmente, essa marcação nunca foi utilizada.**

The Wall foi concebido por Maya Ying Lin, em 1981, portanto cerca de duas décadas antesda era da interatividade digital, que acabou influenciando outras áreas***. Na época, Maya era estudante de Arquitetura na Universidade de Yale e tinha apenas 21 anos. Seu projeto venceu um concurso, que tinha mais de 1 mil 400 inscritos.


The Wall: tão polêmico como a guerra
Foto Dennis Larsen por Pixabay - Matéria The Wall - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

A iniciativa de erguer um monumento que eternizasse a memória dos milhares de mortos na guerra do Vietnã partiu de Jan Scruggs, um veterano da guerra ferido no front, e foi influenciada pelo filme The Deer Hunter, que conta a saga de três sobreviventes da guerra. Com a ajuda de outros veteranos, Scruggs criou, em 1979, uma organização sem fins lucrativos denominada Vietnam Veterans Memorial Fund (VVMF) voltada para o financiamento do memorial, e conseguiu arrecadar mais de 8 milhões dólares apenas com fontes privadas. 

O concurso para escolha do projeto foi realizado em 1981 e, para surpresa de muitos, a proposta
Foto JamesDeMers por Pixabay - Matéria The Wall - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
vencedora tinha um desenho que rompia com todos os padrões. O design inusual, a cor preta e a falta de ornamentos assustaram representantes do governo e pelo menos dois importantes apoiadores – H. Ross Perot e James Webb –, que decidiram retirar sua ajuda. O secretário do Interior do governo de Ronald Reagan, James Watt, recusou-se a emitir a licença para a construção do memorial. A saída para o impasse foi aprovar, juntamente com The Wall, o projeto de um monumento figurativo, no estilo mais tradicional, apresentado pelo terceiro colocado no concurso: Frederick Hart. A tríade foi concluída em 1993, com a inauguração do Memorial às Mulheres, projetado pela escultora Glenna Goldcare, a pedido da ex-enfermeira militar Diane Carlson Evans, criadora da organização hoje denominada Vietnam Women's Memorial Foundation.
Foto Skyring em Wikipedia em Inglês - Matéria The Wall - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Um lugar de reconciliação nacional?


A polêmica em torno do muro e o fato de o memorial acabar integrado por três partes estanques refletem, de certa forma, a divisão da sociedade americana não apenas em torno da guerra, mas também em relação ao próprio monumento. E, no que diz respeito ao muro, o desacordo em relação ao projeto foi apenas uma parte da questão. Havia também aqueles que não concordavam com a construção de um monumento que lembrasse uma guerra perdida.

Mas os anos se passaram e, embora tenha sofrido atos de vandalismo, alguns deles claramente políticos, ‘The Wall’ parece ter conquistado o apoio senão de todos, pelo menos de grande parte dos norte-americanos. Alguns chegam a afirmar que se trata de um monumento de reconciliação nacional.

Seja o que for que tenha ocorrido, o fato é que o monumento recebe hoje milhões de visitantes por ano e suas paredes são constantemente enfeitadas com flores, bandeiras e outras oferendas. Todo esse material é recolhido, catalogado e já foi tema de exposição no Smithsonian Institution 's Museu Nacional de História Americana.
Foto Steve Wilson por Pixabay - Matéria The Wall - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Suas paredes cobertas de nomes já inspiraram dezenas de canções e ganharam réplicas - algumas fixas, como "Wall South", no Veterans Memorial Park Pensacola, na Flórida, inaugurada em 1992; outras móveis, a fim de proporcionar aos que não podem viajar até Washington, uma simulação da experiência de visita ao muro. E talvez não seja um exagero quando se fala que “The Wall” pode estar criando um gênero. Pelo menos um memorial de guerra já foi criado
Foto de satélite - Matéria The Wall - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

com suas características: o Northwood Gratitude and Honor Memorial, em Irvine, Na Califórnia, em homenagem às vítimas das guerras do Iraque e do Afeganistão.

*Um diretório (livro) mantido no local auxilia os visitantes a encontrarem nomes de parentes e amigos.

**Ao que se sabe, alguns soldados que não estavam entre os mortos ou desaparecidos tiveram seus nomes inscritos no muro por erro administrativo, e isso tem sido corrigido ao longo dos anos, por meio de trocas de placas, mas não houve casos de desaparecidos terem sido encontrados vivos.

***Os monumentos ‘vivos, isto é,’ com elementos que propiciam a realização de rituais, não era exatamente uma novidade na década de 1980, quando The Wall foi concebido por Maya Lin. Há inúmeros exemplos na antiguidade e na Idade Média, inclusive no Ocidente – caso de Alhambra, na Espanha -, mas não era comum nos monumentos da chamada civilização ocidental, com o perdão pela generalização. 


The Wall - Constitution Gardens - Washington - Estados Unidos - América do Norte


Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes

Fotos:

(1) Monica Monica Volpin por Pixabay
(2) Saildancer por Pixabay
(3) snyderico3 por Pixabay
(4) Dennis Larsen por Pixabay
(5) JamesDeMers por Pixabay
(6) Skyring em Wikipédia em inglês - Transferido de en.wikipedia para a wiki Commons por Estoymuybueno.
(7) Steve Wilson por Pixabay
(8) Imagem de satélite

Referências: 



Filme:

The Deer Hunter (No Brasil, O Franco Atirador)
-------------------------------------------
Deixe um comentário a seguir e, se gostou, divulgue esta postagem em seus perfis nas redes sociais. Nos quadradinhos abaixo, você pode clicar em sua rede preferida e compartilhar diretamente.

Para ler sobre outros 'lugares de memória', clique nos links abaixo:


8 comentários:

  1. Washington, de um modo geral, é uma cidade incrível para se visitar, uma das mais interessantes dos Estados Unidos. Os monumentos, os museus do Instituto Smithsonian.... e a cidade linda, cheia de atrativos... dá vomtade de voltar mil vezes. Estive lá em 2005 e me apaixonei!

    ResponderExcluir
  2. Muito boa escolha Sylvia. O monumento é um testemunho de gratidão do povo americano aos seus combatentes e impressiona pela simplicidade e pela força! Parabéns! N

    ResponderExcluir
  3. Esse memorial é lindo. Muita história por traz desses monumentos e homenagens ao veteranos do Vietnan

    ResponderExcluir
  4. parabéns Sylvia pelo belíssimo post, esse memorial é mesmo uma grande homenagem aos veteranos da guerra.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Hebe. Concordo com você. Esse memorial é especialíssimo. E pensar que foi projetado por uma aluna de Arquitetura. Impressionante!

      Excluir

Obrigada por seu interesse em nossa postagem!