03/07/2018

Piranhas: ao longo do rio e além do Cangaço

Conta a tradição que Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, nunca invadiu Piranhas porque era
devoto da padroeira de cidade Nossa Senhora da Saúde. A única vez em que um de seus seguidores atreveu-se a fazê-lo foi repreendido pelo líder. Mas, ironicamente, a cidade que o Rei do Cangaço tentou proteger tornou-se a protagonista de sua derrota final. Foi de lá que saíram os seus executores e foi também lá, em frente à Prefeitura, que foram expostas, pela primeira vez, as cabeças de vários integrantes do bando para deixar claro que o Cangaço tinha sido exterminado.

A batalha final, travada no estado de Sergipe, do outro lado do rio*, talvez tenha sido provocada por aquela desobediência do cangaceiro Gato, ocorrida dois anos antes. Segundo relatos, quando a cidade foi invadida, os que ainda não tinham sido atingidos fugiram, inclusive o delegado e o juiz, mas Chiquinho Rodrigues não pôde fazer o mesmo porque sua mulher, Helenira, estava de resguardo e não podia se locomover. Então ele decidiu enfrentar os cangaceiros apenas com um rifle. Conta-se que a vitória sobre o bando de Gato foi alcançada
graças às rezas da esposa e à sua própria coragem, logo recompensada pelo Exército com a doação de dois rifles.

Oitenta anos depois, os rastos de todo esse medo e da violência de ambas as partes transformaram-se em história e em lendas que agora provocam apenas a curiosidade dos viajantes. A história é contada oficialmente no Museu do Sertão, instalado na antiga estação ferroviária bem no centro da cidade ou, de maneira mais lúdica e fragmentada, nas peças do artesanato local, nas encenações dos grupos de teatro e até mesmo nos nomes de estabelecimentos comerciais.

Além do Cangaço

Mas, embora seja uma pequena cidade, aparentemente perdida no sertão alagoano, Piranhas é muito mais que um cenário histórico do Cangaço. Encanta por sua aparência colonial, com ruas de pedra e casarios coloridos no estilo colonial inglês. Prédios históricos como a torre do relógio, a antiga estação ferroviária, o centro das artes e a Igreja de Santo Antonio levaram a seu tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2002.

Piranhas seduz, também, por sua longa e movimentada história. O local é habitado desde a época colonial e sempre foi um dos principais centros às margens do São Francisco. Inicialmente chamava-se Tapera e o site da Prefeitura Municipal apresenta três versões que podem justificar seu novo batismo. A primeira e mais conhecida é a lenda de um pescador que conseguiu pegar uma enorme piranha e, chegando em casa, percebeu que havia esquecido o cutelo na beira do rio, então falou para o filho: vá ao porto da piranha e traga o meu cutelo.

A segunda vem do viajante Rodrigues Carvalho que esteve na cidade em 1854, segundo o qual os moradores achavam o lugar tão feio que chegavam a compará-lo aos dentes das piranhas. A terceira, e talvez a mais bem aceita, conta que em frente à cidade havia um ponto do rio onde ocorriam muitos naufrágios e os tripulantes das embarcações eram devorados pelas piranhas.

Há ainda uma quarta explicação, segundo alguns a única verdadeira. A palavra Piranhas seria uma corruptela do termo termo "Pira-ai", com o qual os indígenas teriam batizado o peixe e o local, e que significa peixe-tesoura.

A onipresença do Velho Chico 

Nas quatro versões, assim como em todas as questões que envolvem ou envolveram a cidade, o rio está de alguma maneira presente. Nele
navegaram as embarcações que, no século 17, proporcionaram a troca de mercadorias entre o litoral e o sertão de Alagoas. E foi para interligar seus trechos navegáveis que, no século 19, se construiu a Estrada de Ferro Paulo Afonso, entre Piranhas e Petrolândia, em Pernambuco.

É a força de suas águas que move a Hidrelétrica de Xingó, responsável por ganhos e perdas de semelhantes proporções. É essa usina que fornece 25% da energia do Nordeste. Sua construção provocou a enchente do cânion que atravessa quatro municípios vizinhos e foi transformado em paraíso natural, onde turistas e moradores da região passeiam em lanchas ou catamarãs e tomam banho de rio enquanto observam os paredões.

Mas foi também a usina que causou incontáveis danos ambientais, a começar pela destruição das matas ciliares, que são habitats naturais de diversos animais. A geração de energia, por sua vez, mudou a temperatura da água comprometendo a sobrevivência de algumas espécies. Houve, ainda, o surgimento de outros peixes como é o caso do tucunaré, desviado da região amazônica - uma espécie carnívora e predadora que está aniquilando os peixes locais. Houve até  uma mudança no cardápio: em vez de pitu e surubim, o prato mais comum em Piranhas é agora o tucunaré.

Misturadas com o rio estão a fé e a crendice. Em suas margens, é comum se avistar altares rústicos com a imagem de São Francisco. É também na beira do rio que se ouve a maioria das lendas da região. A mais conhecida é a do Caboclo d'água, um homem que vive no rio e vira as canoas de quem navega à meia-noite. Mas há ainda muitas outras, como a do Fogo corredor, que tem várias versões Brasil afora, mas em Piranhas é uma espécie de condenação imposta aos compadres que se apaixonam traindo as pessoas com quem são casados. Ao morrerem, os amantes adúlteros transformam-se em duas chamas que movem-se sobre a água do rio, uma correndo em direção à outra.

O Velho Chico é também lugar de banho para turistas e nativos. Em terra firme, é difícil se encontrar um ponto do qual não seja visto ou  pressentido pela proximidade. E para completar, o rio ocupa grande parte da paisagem que se contempla de cima, a partir dos mirantes localizados nos dois extremos da cidade:  a igreja de Senhor do Bonfim e a pirâmide que marca a passagem do século 19 para o século 20.



Piranhas - Alagoas - Nordeste - Brasil

  • As fotos coloridas desta postagem são de Jaqueline Rodrigues, Lúcia Bellenzani e Sylvia Leite. As fotos em preto e branco são de autor desconhecido.

* O local da morte de Lampião e seus principais companheiros (a grota de Angico) será tema de outra matéria. Aguardem.

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27 comentários:

  1. Sim gostei e conheço a cidade e os causos

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    1. Só faltou dizer seu nome. Fiquei curiosa. Obrigada pelo comentário. Bom saber que a matéria foi aprovada por quem conhece.

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  2. Parabéns, seus blogs são maravilhosos!

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  3. Parabéns!!! Adoro seus textos e seu blog!!! 🌻😘

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    1. Obrigada. Fico feliz com isso. Da próxima vez escreva seu nome.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Muito bom! Saudades do tempo que trabalhei nessa linda região!

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    1. Obrigada, Valtinho. Não sabia que tinha trabalhado lá. deve ter sido muito bom.

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  6. Excelente matéria. Já estive algumas vezes em Piranhas, mas adorei ficar sabendo mais detalhes sobre essa aconchegante cidade. Uma delícia saborear uma cerveja com pitu, vislumbrando o belo Chico.
    Parabens, Sylvinha

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    1. Que bom que você gostou, Rose. Volte sempre. Toda quinta tem postagem nova.

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  7. Sylvia que histórias fantásticas dessa cidade Nunca tinha ouvido falar antes. Grata pela matéria. Bj

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    1. Eu que agradeço pela visita e pelo comentário.

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  8. Celia Regina Moraes Leme5 de julho de 2018 22:09

    Acima foi eu que esqueci de assinar o meu comentário Sylvia.

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    1. Ah, legal. Fico morrendo de curiosidade quando as pessoas não assinam rsrsr

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  9. Vou levar vc na casa de Celso Rodrigues, filho de seu Chiquinho Rodrigues, pra vc conhecer os diversos causos dessa cidade. Ele é um querido amigo da nossa família.

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    1. Oba! Vou cobrar, heim!!! Enquanto estava escrevendo a matéria, conversei com Jaqueline Rodrigues. Ela me passou informações interessantes e até me convidou para conhecer o sobrado vermelho, o casarão dos Rodrigues. Mas quanto mais contatos, melhor! Obrigada.

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  10. Que ótimo! Fui com o BLOG VIAGENS PELO BRASIL a Piranhas e amei!Gosteida sua perspectivs detalhando aspe tos históricos. Parabéns!

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    1. Legal, Karina. Toda quinta tem postagem nova aqui. Fique ligada. E obrigada pelo comentário.

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  11. Só hoje parei para ler. Gostei muito. Já conhecia a história mas você conseguiu colocar coisas que não tinha observado . Parabéns.

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    1. Que bom! Conseguir acrescentar alguma coisa é uma grande satisfação. Obrigada pela assiduidade. beijo

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