25/07/2018

Catedral de sal: um convite ao recolhimento

A visita começa por um túnel que leva a um enorme corredor. Pouco a pouco vamos nos acostumando ao ambiente escuro, úmido, silencioso  e com um cheiro muito próprio. A jornada é longa, mas depois de caminhar alguns metros perdemos a noção do tempo e experimentamos um espaço ao mesmo tempo acolhedor e inquietante.


Enquanto avançamos, vamos observando as 14 estações da Paixão de Cristo representadas simbolicamente por cruzes esculpidas em diversas formas e tamanhos no próprio sal. Na terceira estação, quando Cristo deixa cair a cruz pela primeira vez, no lugar de uma escultura temos o símbolo vazado em uma parede de sal, representando sua ausência. 

Não é preciso ser cristão, ou conhecer a Bíblia para se encantar com o espetáculo. Depois da Via Sacra, encontra-se a cúpula da catedral - alegoria do contraste entre o céu e a terra. Seguindo em frente, encontramos também esculturas de anjos e um grande presépio.


A chegada ao centro da catedral é impactante pela beleza e pelas dimensões.  A nave central é ancorada por quatro enormes colunas que representam quatros dos Doze Apóstolos: Lucas, Marcos, Mateus e Paulo, considerados os pilares da fé cristã. 

Atrás do altar, ergue-se uma cruz de 16 metros de altura por 10 de largura e 80 cm de espessura. Segundo os colombianos, é a mais alta do mundo em espaço subterrâneo e embora pareça ter volume, foi esculpida em baixo relevo na parede de sal.

No chão, antes dos bancos, uma homenagem a Michelangelo com a reprodução de uma das cenas pintadas por ele na Capela Sistina* - o nascimento de Adão - talhada em mármore pelo escultor Carlos E. Rodríguez Arango

A catedral está localizada a 180 metros da superfície e para alcançar o seu centro é preciso andar por mais de um quilômetro dentro da mina.

A obra foi inaugurada em 1995. Antes havia outra catedral, concluída em 1954, que precisou ser interditada por questões de segurança. Mas a história não começa aí. Antes disso, muita água rolou e, com ela, muito significado.

O começo de tudo


O cloreto de sódio -  todo mundo sabe, embora pouco se reflita sobre isso - está presente de diversas formas em nosso dia a dia. Além de ser um realçador de sabor na culinária de inúmeras culturas, é conhecido também por sua função de limpeza e conservação.  O sal grosso é usado em escalda pés e banhos de descarregoSalgar a carne é uma forma de aumentar sua duração e, na Grécia Antiga,  usava-se a metáfora "já comemos muito sal juntos" para indicar uma amizade muito antiga.


Na economia, o sal já teve o mesmo valor do ouro. No Império Romano era usado na remuneração dos soldados, o que fez surgir a palavra salário, que vem do latim salarium argentum, ou salário prata, que significa pagamento em sal. 

Em função de suas aplicações práticas, o sal passou a ter extrema importância nas civilizações e a integrar o simbolismo de algumas tradições. Na Alquimia, por exemplo, "é a substância e o princípio fixo de tudo o que existe". Acredita-se que ele dissolve e coagula todas as coisas. No Antigo Testamento, carrega o simbolismo de firmeza e durabilidade. A aliança de Deus com seu povo é chamada de "aliança de sal".
   
Como é inerente a todas as coisas, o sal também tem seu uso negativo, e isso está impresso inclusive no livro sagrado. Após a destruição de uma cidade, por exemplo,  jogava-se sal em seu solo como uma espécie de maldição, no intuito de estabelecer a infertilidade. Foi assim no Brasil, durante o massacre aos integrantes da Inconfidência Mineira**. Depois de matarem e esquartejarem Tiradentes, os repressores ordenaram que sua casa fosse destruída e o local salgado para que ali não vingasse mais nada.

Com tantas serventias e crenças a seu respeito, o sal foi extraído da natureza desde épocas remotas, das mais diversas formas. Em Zipaquirá, município próximo a Bogotá, onde está localizada a catedral,
 as reservas existem há milhares de anos e são exploradas desde o período pré-colombiano pelos nativos Muíscas

Naquela época, o processo era simples e artesanal. Sem tecnologia de extração direta, os nativos usavam potes para colher a água salobra, que deixavam evaporar, restando apenas uma pedra de sal. 


Após o descobrimento, os exploradores artesanais passaram a trabalhar, escravizados, sob o comando dos conquistadores e a técnica da evaporação foi trocada inicialmente pela raspagem das pedras e, tempos depois, pelas escavações. 


O sal fez Zipaquirá crescer e tornar-se a principal cidade da Colômbia, tanto que foi lá que Gabriel Garcia Marques estudou e cultivou sua paixão pela literatura, mas isso é assunto para outra matéria.



De templo a monumento


O ambiente escuro, úmido e isolado das minas é um convite à interiorização e é possível que os Muíscas realizassem seus ritos nas galerias subterrâneas, mas se isso de fato aconteceu, não sobrou nenhum registro. 

O que se tem notícia é que, tempos depois, quando os escravos indígenas foram substituídos por trabalhadores cristãos, as minas passaram a ser usadas também como templo religioso. 

A catedral, inicialmente idealizada como capela, foi consequência disso tudo e da devoção a Nossa Senhora do Rosário, protetora dos mineiros. Como a história não pára, o que antes era um simples lugar de oração, hoje figura como a primeira maravilha da Colômbia, visitada por turistas do mundo inteiro, e até indicada para concorrer ao título de uma das sete maravilhas do mundo.

Como a primeira construção precisou ser interditada, houve um cuidado especial na conceoção da basílica atual. Embora ainda exista exploração de sal, o trabalho é feito em outra parte da mina e, segundo os responsáveis pela catedral, não representa nenhuma ameaça aos visitantes.

Catedral de Sal - Zipaquirá - Colômbia


* A Capela Sistina será tema de uma nova matéria.
** Temas relativos à Inconfidência Mineira serão tratados em matérias específicas.
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26 comentários:

  1. Respostas
    1. É lindo mesmo! Se puder, deixe seu nome. Gosto de saber quem comenta. Obrigada!

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  2. Olá querida Sylvia Leite adorei como sempre. Incrível esse lugar. Não conhecia, fiquei curioso e a fim de conhecer. Parabéns mais uma vez por nos proporcionar uma viagem fantástica através da sua narrativa e das imagens.

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  3. Muto legal essa história... Colômbia, um país que ainda quero visitar. beijos, Sy.

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  4. Se já desejava conhecer a Colômbia a sua reportagem serve para reforçar esse desejo. Mais uma vez parabéns,

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  5. Muy buena historia y excelente como la relatas, como siempre. Abrazo

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  6. Uma viagem fantástica. Gostei muito. Como não teria coragem de fazer, pois não gosto de lugares tipo cavernas, você me concedeu a oportunidade de conhecer tantas coisas maravilhosas. A sua maneira de escrever nos leva a participar. Parabéns.

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    1. Obrigada, Maria Helena. Adoro saber que voc~e está ppor aqui toda semana. Beijos.

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  7. Parabéns Silvinha..
    Conheci esse lugar, realmente muito interessante.. parabéns

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    1. O lugar é mesmo muito especial. Obrigada pelo comentário. Só faltou dizer seu nome rsrsr.

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  8. Amei essa matéria! O lugar deve ser incrível!

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  9. Absurdo. Tão improvável quanto atraente.
    Delícia de leitura.
    Parabens

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    1. Obrigada, Joaquim. Toda quinta tem postagem nova. Volte sempre. Bjs

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  10. Respostas
    1. Obrigada, Gilca. Bom saber que que é leitora assídua.

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  11. Celia Regina Moraes Leme9 de agosto de 2018 17:37

    Taí outro lugar curioso para se conhecer! Gostei. Beijos

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