28/06/2018

Atacama: intensidade e cultura milenar no deserto

Fotos de Marcelo Prates

Depois de quatro ou cinco dias em São Pedro de Atacama, você tem a impressão de já estar ali há mais de um mês, tamanha a intensidade da experiência.

Toda essa energia é atribuída pelos nativos a fatores bem distintos. Os mais místicos afirmam que nesse local encontra-se um dos chácras do mundo, representado por uma bola de cristal encontrada no vulcão Licancabur durante uma expedição arqueológica.

Outros, mais céticos, acreditam que a causa é química e está relacionada ao fato de a região abrigar a segunda maior reserva mundial de lítio, substância usada em medicamentos reguladores de humor. Como o mineral é extraído por evaporação, eles defendem  a tese de que o ar respirado no Atacama é capaz de causar equilíbrio e conforto emocionais.

Seja como for, a maioria dos visitantes diz sentir um estranho bem estar no local e não faltam estímulos para isso. A região traz consigo milênios de história, algumas lendas, além de um espetáculo visual proporcionado pela paisagem e pela fauna, que embora pequena, reúne animais tão diferentes entre si como lhamas e flamingos. Conta ainda com fenômenos naturais surpreendentes, o que por si só já seria suficiente para nos colocar em estado de espanto.

Natureza pulsante

A subida ao vulcão El Tatio talvez seja a vivência mais impactante. Em apenas uma hora e meia, madrugada adentro, se atravessam distintos cenários até alcançar o ponto final a mais de quatro mil metros do nível do mar, com uma temperatura média de 10 graus negativos.  Aí é só esperar o início do espetáculo, movimentando-se lentamente para não sofrer as consequências da mudança na pressão atmosférica.

Pouco a pouco surgem as colunas de vapor. São os famosos gêisers - jatos de origem vulcânica que saem da terra a uma temperatura de 85 graus celsius e podem atingir até 10 metros de altura. Para vê-los  é preciso chegar lá em cima antes do amanhecer.

Depois que o sol nasce, a temperatura ambiente sobe bastante, fazendo com que os gêisers percam força e altura. Aí chega a hora de mergulhar na lagoa, onde a água fria da superfície é aquecida pelo vapor que sobe também em seu interior e tempera o banho.

Espanto permanente

O assombro não termina aí. No Vale da Lua, onde o deserto se apresenta de forma mais nítida, a paisagem é semelhante à da superfície de Marte. A aparência decorre do baixo nível de precipitação do local, que já chegou a ter 1.400 dias seguidos de estiagem, e tornou-se conhecido como o mais seco da Terra.

Perto dali, e em meio a toda essa aridez, outra surpresa: um salar onde é possível colher cristas de sal, onde a paisagem varia de cor ao longo do dia misturando tons que vão do azul ao cor de rosa e onde vivem os flamingos.

Há várias explicações para o fenômeno, mas a pergunta que não conseguimos deixar de fazer é: isso aqui já foi mar? A resposta é sim. E por incrível que pareça aos leigos como eu, não é a presença do salar que revela esse passado.

Em 2011, fósseis de baleias foram encontrados no local, o que confirmou uma antiga suspeita. Mais recentemente, pesquisadores da Sorbonne descobriram pinturas rupestres com figuras de baleias e outros animais marinhos no sítio arquelógico El Médano. Como esse tipo de pintura costuma reproduzir cenas do cotidiano, tem-se aí mais uma evidência.

As múmias mais antigas do mundo

O deserto de Atacama é também considerado também um lugar de múmias, algumas delas mais antigas que as do Egito, que foram deixadas ali mais de sete mil anos atrás pela cultura Chinchorros. As descobertas iniciais foram feitas por um arqueólogo alemão no início do século passado. Na década de 1980, encontrou-se casualmente um cemitério 96 múmias de homens, mulheres e crianças. Cerca de 30 por cento delas teriam passado por um processo de mumificação natural, resultante da aridez do local e da presença de nitratos no solo. Os corpos restantes teriam sido mumificados artificialmente.


Com tantas particularidades, Atacama não poderia deixar de ter também suas lendas. A mais conhecida narra a trajetória dos vulcões Licancabur e Juriques que são irmãos, vivem lado a lado e tornaram-se rivais ao se apaixonarem pela colina Quimal.

A história tem mais de uma versão, mas em todas elas Quimal corresponde ao amor de Licancabur e Juriques acaba com a cabeça cortada por ter tentado possui-la à força.  Essa seria a razão do vulcão Juriques ter uma forma que parece incompleta.

Em uma das versões da lenda, Licancabur é o autor da degola e seu pai o pune com o afastamento de Quimal e uma vez por ano ela o toca para perpetuar seu amor. Esse episódio coincide com um fato real: anualmente, no solstício de inverno, a sombra da colina Quimal encosta no vulcão Licancabur.

Uma cidade de adobe sob o céu azul

Mesmo depois de tornar-se um destino turístico procurado por diferentes tipos de viajantes, São Pedro de Atacama consegue preservar sua concepção original, com ruas de terra, construções de adobe e alguns costumes inusitados como é o caso da proibição de dançar em respeito aos mortos, decorrente do fato da cidade ter surgido a partir de um cemitério.


A reverência aos mortos, aliás, é um dos sentimentos mais presentes na região e é claramente visível nos túmulos, onde as cores de flores e ornamentos criam um clima mágico
que parece querer dar-lhes vida.

O nome do vilarejo tem origem nos povos que primeiro se alojaram por ali - os atacamenhos. Consta que eram tribos nômades e começaram a ocupar o local cerca de seis mil anos antes de Cristo. Lá pelo século 5 da nossa era, a região começou a florescer impulsionada principalmente pelo comércio de metais, especialmente o cobre - o que possivelmente contribuiu para atrair o interesse de diversos povos, culminando com a invasão dos Incas e, tempos depois, dos espanhóis.

Hoje não é mais o florescimento econômico que atrai outros povos ao deserto de Atacama e sim suas condições geográficas e climáticas que o tornam excelente para a observação do céu: encontra-se a mais de 2.400 metros de altitude, tem pouca luz artificial e pouquíssima umidade. Por isso, reúne instituições da Europa, Estados Unidos, Canadá, Japão, Taiwan e Coréia no projeto ALMA (sigla para Atacama Large Millimeter/ submillimeter Array) - um dos maiores empreendimentos de pesquisa astronômica do mundo.


San Pedro de Atacama - El Loa - Antofagasta - Chile


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24 comentários:

  1. um lugar mágico, fantástico... paradoxalmente, um deserto com incontáveis variedades. lembro de nossa viagem.

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  2. Lindo, Sylvinha! Realmente, um lugar especial, que merece destaque!!! Beijão!

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  3. Notável. Uma outra dimensão esse é o sentimento que tive quando estive lá.

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    1. Dá para perceber por suas fotos. Obrigada pela parceria!

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  4. Amei!!!
    Como Sempre seu trabalho é uma maravilhosa escavação do belo !!!!

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  5. Maravilhosa! Quero ir para São Pedro de Atacama para, alem de conhecer, sentir equilíbrio e conforto emocionais

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    1. Hehehe Agora sentinuma grande responsabilidade. Espero que você encontre tudo isso por lá e que o lugar não me desminta rsrs

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  6. Um lugar lindo. Lembra paz. A cada quinta feira conheço um local bonito e com muitas histórias. Estou gostando muito. Parabéns.

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    1. Obrigada, Maria Helena. É muito bom ter você por aqui todas as quintas.

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  7. Maravilhosa e ampla descricao do Atacama. Ajudou-me a tomar a decisao de me programar para visita-lo.
    Augusta Leite Campos

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  8. Maravilhosa e ampla descricao do Atacama. Ajudou-me a tomar a decisao de me programar para visita-lo.
    Augusta Leite Campos

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    1. Que bom, Gusta. Adoro quando alguém decide viajar para um lugar que apresentei rsrsr. Espero que goste! beijo

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  9. Belo texto, como sempre. O seu olhar diferenciado nos faz desejar viajar por os lugares que ainda não conhecemos. Parabéns

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    1. Obrigada, Neilton. Bom te ver por aqui toda semana.

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  10. Lugar de muitos mistérios e muitas belezas e curiosidades!

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  11. Celia Regina Moraes Leme1 de julho de 2018 23:57

    Que vontade de conhecer.

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