26/04/2018

Casapueblo: sonho e poesia à beira-mar

Blog lugares de memória - Matéria Casapueblo - foto Sylvia Leite
"Era uma casa, muito engraçada,
não tinha teto, não tinha nada,
ninguém podia, entrar nela não,
porque na casa não tinha chão..."

Blog lugares de memória - Matéria Casapueblo - foto Sylvia Leite Há quem diga que Vinícius de Moraes escreveu a letra acima inspirado na "escultura habitável" que o artista plástico Carlos Páez Vilaró ergueu em um penhasco à beira do Rio da Prata. Caso seja verdade (o próprio Vilaró tinha dúvidas), Vinícius não exagerou: o teto, o chão e as paredes estão lá, em seus devidos lugares, mas é como se não estivessem, tamanha a sensação de surpresa e estranhamento que sentimos ao alcançar cada novo espaço.

Casapueblo é um edifício branco, como os mediterrâneos, e  encontra-se sob o mesmo céu azul. A diferença é que está localizada do outro lado do mapa e, embora seja menos antiga, parece ter mais segredos a serem desvendados.

Luta contra a linha reta

O primeiro deles é o seu método de construção. Vilaró não era arquiteto, nem engenheiro, e não contratou profissionais da área para projetar e fazer sua casa-ateliê. Pelo contrário. Preferiu reunir pescadores que tivessem intimidade com a geografia local e nenhum conhecimento anterior de construção, para que não caíssem na tentação de seguir as regras convencionais.

Blog lugares de memória - Matéria Casapueblo - foto Sylvia Leite Fez grande parte do trabalho com as próprias mãos e deixou que cada um de seus ajudantes criasse livremente dentro de alguns poucos parâmetros. Uma das linhas mestras da construção, segundo Vilaró, foi a "luta contra a linha reta, tratando de fazê-la mais humana".

Assim como fez Escher em suas gravuras, ele usou e abusou das passagens de nível a ponto de provocar uma confusão no visitante, que dentro de pouco tempo pode não identificar mais em que andar se encontra. Até mesmo Vilaró se confessava afetado por essa incerteza: "nunca soube se as escadas subiam ou desciam".

Blog lugares de memória - Matéria Casapueblo - foto Sylvia Leite Mas o influenciador declarado do projeto da Casapueblo foi um pássaro, o joão-de-barro (hornero em Espanhol),  e a sua "olaria do ar".  A intenção do artista era fazer uma casa como aquela: cheia de curvas, pequenos compartimentos e, principalmente, aberturas livres para entrar e sair. Como uma habitação humana talvez não pudesse chegar a tanto, ele fez com que as portas e janelas, compradas em demolições, servissem de molduras à paisagem externa.

Com tal heterodoxia, pode parecer que não houve, por parte dos construtores da Casapueblo, qualquer cuidado com a segurança, mas Vilaró estava muito atento a esse aspecto. Ciente de que não conhecia cálculo, evitou que os cômodos ultrapassassem um determinado tamanho e exagerou na quantidade de ferro a fim de reforçar a estrutura.

Vinho, música e literatura

O que deu alma a seu método foi a criação de uma irmandade. Ao final do dia, ele e seus ajudantes, na maioria pescadores, reuniam-se para comemorar, com vinho e carne, os avanços da obra e brindar à amizade.

Para dinamizar o trabalho, introduziu música no canteiro de obras e  ficou surpreso ao constatar que alguns pescadores gostavam de música clássica. Com o tempo, foi criado também o almoço comunitário, no qual o artista e seus ajudantes liam textos de toda espécie: "umas vezes se desfrutavam os livros de Eduardo Galeano, outras, a poesia de Neruda ou também simplesmente a biografia de um atleta"*.
Blog lugares de memória - Matéria Casapueblo - foto Sylvia Leite
Tudo isso fez crescer  um forte laço entre os artífices da Casapueblo. Além da amizade, os pescadores ganharam também reconhecimento impresso em certificados feitos manualmente por Vilaró.

A construção durou mais de 36 anos, a partir da década de 1960. Durante esse período, a Casapueblo foi visitada por gente de toda parte e com todo tipo de propósito. Alguns pediam a Vilaró que pusesse fim à estiagem com sua escultura africana da "Deusa da chuva", que era uma das peças-chave na decoração da casa. As crianças se aproximavam para tocar as paredes brancas, pensando que fossem de açúcar.

Amigos do artista iam descansar ou passear na Casapueblo  e, cada vez que uma visita se anunciava, Vilaró construía um novo quarto apropriado ao caráter do futuro ocupante. Foi assim com muita gente conhecida como Jorge Luís BorgesMercedes SosaDorival Caymmi e outros tantos.

A época de sonho certamente já passou. Hoje funcionam ali um museu, um restaurante e um hotel. A área aberta à visitação corresponde a menos de dez por cento do total. Mas ainda é possível aproveitar um pouco de toda essa memória em um recanto qualquer das varandas, contemplando o Rio da Prata, que de tão largo, é tratado como mar. E aí uma pergunta se torna inevitável: como pode alguém materializar, de uma maneira tão concreta, conceitos e formas que parecem só existir em sonhos?

A resposta talvez esteja no fato de Carlos Paéz Vilaró ter sido artista em todas as áreas, do cinema à arquitetura, das artes plásticas à literatura, o que teria lhe permitido mesclar em sua obra todos esses imaginários. Ou talvez não exista resposta alguma. Até porque em um lugar como Casapueblo, a última coisa que precisamos é racionalizar.  Quanto mais conseguirmos nos entregar à essa quebra de padrões, maior será o nosso deleite.

Casapueblo - Punta Ballena - Maldonado - Uruguai

* As declarações de Vilaró, e muitas das informações desta matéria, foram retiradas do livro
"Posdata, Autobiografia de Carlos Páez Vilaró", escrito e ilustrado pelo artista.

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46 comentários:

  1. Muito bom, Sylvinha! A Casa Pueblo é, mesmo, inspiradora! Parabéns!

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  2. Perfeita descrição da Casapueblo. Lugar mágico que encanta a todos!

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  3. Amei, agora fiquei ainda mais curiosa pra conhecer.

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  4. Essa geração de artistas e intelectuais sulamericanos tem ainda muitos segredos e histórias para aprendermos. Obrigado Sylvia!

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  5. Impossível esquecer o por do sol, com poesia e música que acontece todos os dias. Obrigado por mais essa lembrança.

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    1. Obrigada, Neilton. Bom saber que a matéria ativou suas memórias.

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  6. sensacional... quero volver ao Uruguai, adorei.

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  7. Estes textos têm uma delicadeza inusitada... Inusitada pq alguem q escreve assim deveria escrever mais e eu nao conhecia seus textos. São sutis, com escolhas precisas de termos, sem obviedades...Nem excessos... São muito suaves. Ainda assim, com um grande poder de evocação da experiéncia de estar no lugar. E vc escolhe exatamente os ângulos para olhar o q permitirá à leitura do texto ser uma experiência especial, quase ficcional . <3 Amando isso aqui!

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    1. Você quer me fazer chorar? rsrsr Obrigada. Não sei nem o que dizer. Obrigada. Beijo.

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  8. Um lugar como esse mexe com nossa imaginação...fiquei instigada a conhecer.

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  9. Um lugar como esse mexe com nossa imaginação...fiquei instigada a conhecer.

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    1. Legal, né, Lelê? Quinta que vem tem mais, fique ligada. Beijo

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  10. Maldonado é o nome da região? Bom saber que tem hotel nessa construcao. Espero algum dia ir ao Uruguay e este local estara nos meus planos. Parabéns Sylvia mais uma vez. Augusta Leite Campos

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    1. Sim, Gusta. Maldonado é o departamento, o que equivale a nosso estado. O município é Punta Ballena e fica próximo a Punta del Este. Obrigada pelo comentário. Beijo.

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  11. Seus textos são sempre fluidos e a leitura prazerosa. Parabéns!

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  12. Incrível esse lugar. Inclusive pelo fato de não ter a participação de arquitetos ou engenheiros. Deu muita vontade de conhecer. Obrigada por compartilhar.

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    1. Incrível mesmo! Gostaria de ter conhecido quando ele ainda estava lá.

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  13. Texto sensacional que nos leva à fruição desse lugar maravilhoso, mesmo que à distância. Parabéns! Como faço para seguir seu blog? Não encontrei indicação. Beijos

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    1. Muito obrigada, Nilva. A ferramenta para você se inscrever no blog é o quinto item da barra lateral. Primeiro tem as EDITORIAS, depois os PAÍSES, os Estados brasileiros, Buscar postagem por palavra chave e, em seguida, Siga este blog por email. É só colocar seu email na janelinha branca e depois confirmar.

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      Obrigada pelo interesse. Grande abraço.
      Qualquer dúvida, volta a entrar em contato.

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    2. Obrigada voce!Já passei meu Whatsapp. Beijão

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  14. Simplesmente fantástico, excelente descrição. Vamos em frente tá muito bom.

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  15. Oí Sylvia , conheço o lugar e você ofereceu uma outra perspectiva ao falar, por exemplo, das origens da construção e da humanidade que norteou Casapueblo . É um lugar que nos faz sentir bem , obrigada por me fazer relembrar! Bjs

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  16. Lugar fantástico e sua descrição está maravilhosa. Parabéns!!!

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    1. Obrigada. Pena que você esqueceu de assinar o comentário. Se puder se identificar .....

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  17. Que bom Sylvia toda semana saber que vou ler e ver as fotos de lugares que não conheço, e nem tinha ouvido falar. Estou gostando muito. Você merece ser aplaudida por essa feliz idéia. Essa maneira que você fala sobre o local, é muito gostoso de ler. A espera do próximo. Beijos

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    1. Obrigada, Maria Helena. Fico feliz de saber que está gostando. Beijos

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  18. Oi, Sylvia, adorei esse lugar de memórias. O blog tem um visual leve, agradável, e seu texto é tão acolhedor, aconchegante...é como se você estivesse aqui, na minha frente, contando uma história, um lance que aconteceu e você achou legal. Muito boa a sensação de perambular por esse espaço aqui. Amei.

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    1. Obrigada, Raquelzinha. Que bom que você gostou. Toda quinta tem postagem nova. Fique de olho. Beijos

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  19. Estive lá,com minha irmã. Chovia muito e não pudemos apreciar como gostaríamos .O texto da Sylvia completou o que faltou .Beijos e obrigada .Louris

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    1. Obrigada, Loli. Quinta-feira tem mais. Beijos.

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  20. Sílvia querida,
    Parabéns por seu lindo e inspirado trabalho.
    Você tem o dom da escrita e a alma sensível e não poderia resultar em nada mais do que um texto fluido, aerado e transparente.
    Sua conversa escrita me transportou ao topo dessa casa inusitada tanto em sua arquitetura provocativa, quanto em seu ousado processo construtivo.
    Estou, desde já, na expectativa de sua nova viagem.
    Sucesso querida !! Beijo

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    1. Muito obrigada, Lígia. A presença dos amigos aqui é um estímulo. Volte sempre. Quinta que vem tem mais.

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